Caneta e Papel

(com qualquer ou nenhuma inspiração.)

Antes de sair pro trabalho, estava me olhando no espelho, observando as mudanças e meio agoniada pensando se a dor no peito, que me incomodou todo fim-de-semana, voltaria. Cabelo molhado, atrasada, coloquei os óculos escuros e só aí me toquei que tinha me arrumado mais que o costume.

Não costumo me enfeitar muito pra trabalhar. Até porque tenho uma alma meio hippie e, juntando ao fato que meus serviços não me pedem extremo cuidado na apresentação pessoal, me preocupo apenas em não parecer com trapos e limpinha (com cheirinho de maracujá, obviamente, rs).

Daí, que na minha caminhada até o ponto de ônibus, fui recordando da Ed, minha grande amiga no antigo trabalho. Ela sempre ia chiquérrima. Era quase impossível vê-la sem seus saltos altos. Sempre bem arrumada e perfumada. Ficava impressionada com o jeito dela. Não só eu. E muita gente invejava também. Taí, era alguém que eu admirava (e ainda admiro, apesar da distância).

Lembrei especificamente do dia em que nossa chefe pôs na cabeça que era o momento de fazer levantamento patrimonial para o leilão do órgão e determinou que eu e Ed faríamos isso, lá pelo arquivo morto. O lugar era horrível, abafado, ficava nos fundos do estacionamento (que mais parecia um porão), empoeirado e, para se chegar lá, precisávamos descer três lances de escadas. E, justo naquele dia, a Ed teria que acompanhar o esposo num almoço: ela estava toda alinhada. Mas não tirou o corpo fora.

Enquanto íamos descendo a escada, ela foi me contando que aquilo era crueldade da chefe. Nunca tinha prestado atenção no fato de ela sempre ser selecionada para esses serviços. Entre seu desabafo, ela me contava que todos os chefes faziam isto com ela. Achava que esta era uma forma de perseguição ou de humilhá-la, afinal ela jamais saía do salto. E ela me dizia que nunca se negava.

Catalogando os materiais, percebi que ela estava triste me falando isso. E dai ela emendou: “Tu sabes porque sempre estou bem vestida? Porque não quero dar aos meus inimigos o gosto de me verem derrotada. Esse é meu modo de mostrar que estou bem, mesmo que por dentro eu esteja mal”. Me falou estas coisas chorando.

Isso ficou gravado na minha memória.

E acho que hoje resolvi seguir um pouco desse pensamento. Depois de três dias ruins, emocional e fisicamente falando, talvez eu mereça parecer mais arrumada, mais bem cuidada, não dar munição ao inimigo, trazer mais colorido à nebulosidade que me cerca estes dias.

Fiquei pensando que queria ser um pouco como minha amiga. Ter a capacidade de sorrir mesmo quando dói, de não fraquejar diante de quem quer o mal, de ser forte. De não descer do salto jamais (e salto agulha 8cm, tá?).

°_º

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