Caneta e Papel

(com qualquer ou nenhuma inspiração.)

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Chorar faz um bem danado. Lava a alma, leva consigo a dor, seu rolar pelo rosto são as marcas que a dor vai deixando, por não querer nos abandonar.

Choro facilmente. Choro assistindo ficção, propaganda de TV, vendo gente chorando e bebê dormindo; choro, inclusive, pela grosseria dos outros. Chorei vendo as torres gêmeas desabando e quando o avião da Gol desapareceu. Chorei quando a Sakura, finalmente, descobriu que seu verdadeiro amor era o Syaoran. Mas não choro quando levo um senhor baque no dedo mindinho. Nem derramava uma lágrima quando mostrava pra mamãe mais um prego enfiado na sola do pé.

As lágrimas têm vontades próprias;
lagrima-sangue.jpg

tenho quase nenhum comando sobre elas.

Certa vez, na adolescência, fiz um trato comigo mesma: não vou chorar. “Se mamãe brigar, não vou chorar. Se ela me bater, não choro. Se alguém me mandar pra casa do K7, não choro. Se me beliscarem.. não choro!“. O coleguinha me puxava pelos cabelos e eu corria atrás pra dar um safanão! O plástico derretido caiu sobre meus dedos.. e eu sacodia, molhava, arrancava. Me empurraram da calçada, no dia das crianças, e o cimento me machucou onde encontrou espaço. Chegando em casa, mamãe foi fazer curativo com limão. Pergunta se eu chorei? (tá, digamos que escorreu alguma coisa pelo olho…).

Detestava a idéia de chorar na frente de um homem. O único homem que tinha me visto chorar era meu pai. ‘Outro, nunca, nunquinha, ia me ver derramar uma lágrima‘, pensava.

Por outro lado, não sou afeita a orgulho besta. Isso durou um tempo, até quando consegui manter o coração meio congelado em suas revoltas. Mas nasci com a emoção impressa na pele e quando passei no vestibular (quem me deu a notícia foi a secretária da escola), vim chorando todo o percurso pra casa. Era orgulho que não cabia em mim.

Meu primeiro namorado e suas falsas desculpas me levaram a chorar na frente de um homem diferente (ainda tenho raiva quando lembro disso, mas tudo bem..). E minha primeira chefe, e sua admirável falta de amor, me levou, pela primeira vez, às lágrimas em público. Tudo bem, o importante é que sobrevivi!

Hoje, não evito lágrimas. Descobri que elas são minhas solidárias parceiras. Às vezes, peço que elas venham e me socorram e levem o que me aflige pra longe. Seria uma espécie de ritual de purificação? Sei lá. Pra mim, é deixar pra traz o que é mal. Não gosto de mágoas, de rancores, de ódios me atrapalhando a vida, me sugando as forças. Já bastam os próprios desarranjos dela pra me preocupar.

E toda vez que vejo alguém sofrendo, digo: Chora que faz bem. Chorar não é fraqueza, como também já pensei. Chorar é digno, é saudável, é fortalecedor.

Quem não chora vira pedra, não sabe o que é sensibilidade, não sabe ver o outro, não sabe se enxergar, não sabe o que é ser humano.

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